Primeira publicação de 2009. Fiz a leitura do OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO do Verissimo e resolvi selecionar algumas frases que julguei bonitas, ou interessantes. O livro me encantou, fui realmente tocado pelo texto que me emocionou em diversos momentos. Alguns momentos pelas belas frases, outros pelas relações pessoais que acabam acontecendo em toda leitura. Dentre tantas palavras, a que eu escolho para definí-lo é que este livro, em suma, é um livro HUMANO.
"Que vergonha! O pai estava devendo o dinheiro do mês passado, a professora tinha reclamado o pagamento em voz alta, diante de todos os alunos. Ele era pobre, andava mal vestido. Porque era quieto, os outros abusavam dele, davam-lhe trotes, botavam-lhe rabos de papel... Sábado passado ficara de castigo, de pé num canto, por estar de unhas sujas. O pior de tudo eram as maninas. Se ao menos na aula só houvesse rapazes...
Meu Deus, como era triste, como era vergonhoso ser pobre!" (p.24)
"Os sinos começaram a tocar. O som musical enchia o ar, parecendo aumentar-lhe a luminosidade. Eugênio passou a sentir aqueles sons com todo o corpo. Lembrava-se de outros sinos, de outras igrejas, em outros tempos. Viu e ouviu mentalmente a sineta do seu primeiro colégio. Sentiu na memória os ecos tristes daqueles mesmos sinos que dobraram finados no dia em que morrera de tifo um dos alunos do colégio. De repente teve vontade de chorar. Os sinos lhe traziam tantas recordações... O pai contava que tinha sido sacristão quando criança, o padre mandava-o puxar a corda de um velho sino rouco. A mãe cantava um cantiga tristonha e arrastada que falava nos sinos da tarde. Sino... Incêndio. Procissão. Missa. Enterro.
Era alegria ou desespero o que ele sentia? Eugênio apertava os lábios, fechava os olhos. Os sinos estavam nos seus ouvidos, na sua memória, na sua epiderme, nos seus nervos." (p.40)
"Tinha um rosto comprido, dum moreno pálido; à primeira vista não impressionava nem bem nem mal. Quando a vira, pela primeira vez, Eugênio se sentia inclinado a dizer: Feia não é. Mas bonita... muito menos. Fixando mais demoradamente a atenção naqueles olhos olhos negros, vendo aquele rosto animar-se duma vida e duma estranha beleza que surgiram inesperadas de algum misterioso esconderijo interiror e que não dependiam em absoluto dos traços fisionômicos - ele ficara pensando... Acabara por fazer concessões: "Tem um certo quê...". Seria a boca? Não. A boca era grande e de desenho comum. O nariz? Também não. Era comprido e delsgado. Eram , então, os olhos. Pretos e serenos, não se distinguiam pela vivacidade, pela mobilidade ou por algum briho raro. Eram olhos para os quais ao cabo de algumas reflexões Eugênio só achou um qualificativo: humanos. Envolviam mornamente a pessoas ou objeto em que se fixavam, davam uma idéia de profundidade insondável e principalmente de compreensão. Pareciam enxergar além das coisas com uma penetração que nada tinha de indiscreto ou agressivo. Eugênio, porém, quando pensava em Olívia, não podia separar da imagem da amiga a memória de sua voz. Até na maneira de falar Olívia se recuisava a fazer chantagem. Sua voz não era rica de inflexões, não se coloria de falsas doçuras. Era, antes, quase monocórdia, grave e tranquila; tinha, como os olhos, uma quente qualidade humana." (p.69)
"- Por que será - perguntou ele a Olívia -, por que será que às vezes de repente a gente tem a impressão de que acabou de nascer... ou de que o mundo ainda está fresquinho, recém-saído das mãos de quem o fez?
Sem esperar resposta, retomou a cantiga, apertando o braço de Olívia. Ele amava agora aquela gente que se cruzava na rua, nas calçadas, sentia prazer em ser também uma árvora daquela floresta móvel. Teve desejos de beijar Olívia. Sentia que naquele momento esse desejo não tinha malícia nem sensualidade. O que ele queria dela era o beijo do companheiro, o beijo que todas as criaturas deviam dar-se ao se defrontarem na rua, mesmo sem se conhecerem - um sinal de solidariedade, um símbolode boa vontade - o beijo, enfim, que as pessoas trocariam naturalmente se o mundo fosse outro...
Como se tivesse estado a rolar a pergunta no espírito, Olívia respondeu:
- São clareiras que se abrem de repente para a gente poder vislumbrar Deus." (p.93-94)
"Olivia tirou o chapéu, sentou-se ao lado do amigo, fez que ele se deitasse com a cabeça aninhada em seu regaço e começou a acariciar-lhe os cabelos em silêncio. Houve um instante de paz, de doce tranquilidade, quase sono. Mas o silêncio, o calor do corpo de Olívia, o perfume que vinha dela começaram a conspirar." (p.100)
"- Que é que penso de Freud? Bom... eu... - Riu amarelo. - Essa sua pergunta... - Tirou o lenço do bolso e passou-o pelo rosto, que agora sentia úmido de suor.
Ela continuava a sorrir com um canto da boca.
- Será que nunca ouviu falar em Freud? O senhor não é médico?
- Sim, sou médico. mas a senhora compreende... a pergunta foi tão inesperada... Enfim, a minha especialidade não é...
Calou-se, sentira que devia estar com cara de idiota. A pequena mangava com ele, divertia-se à sua custa, devia ser dessas meninas ricas, mimadas e literatas, que gostavam de falar em Freud e na questão sexual só pra mostrarem que são "modernas" e não têm preconceitos. E ele se prestava à ridicula brincadeira." (p. 105-106)
"Às vezes - continuou ele - descubro dentro de mim forças de bondade, de pureza. São elas que me dão alguma esperança, que me dizem que nem tudo está perdido..." (p.147)
"Nossa filha fez dois anos ontem. Já fala, já faz perguntas e já sabe ficar parada, de cabecinha torta, pensando ningu´m sabe um quê. Tenho de lhe explicar que ela tem um pai, como as outras meninas. Anamaria indaga coisas sobre esse pai que nunca viu mas que já principia a amar. Para ela, pois, tu existes à maneira de Deus: tua filha não te vê mas sabe que "és", sente em mim e de certo modo nela própria a tua existência. Por que será que ainda há homens que não acreditam em Deus? O simples milagre de existir é uma afirmação de Deus." (p.170)
"Procurar nossa felicidade através dos outros - aconselhava Olívia em outra carta sem data. - Não estou pregando o ascetismo, mas a santidade, não estou elogiando o puro espírito de sacrifício e a renúncia. Tudo isso seria inumano, significaria ainda uma fuga da vida. Mas o que procuro, o que desejo, é segurar a vida pelos ombros e estreitá-la contra o peito, beijá-la na face. Vida, entretanto, não é o ambiente em que te achas. As maneiras estudadas, frases convensionais, excesso de conforto, os perfumes caros e a preocupação de dinheiro são apenas uma péssima contrafação da vida. Buscar a poesia da vida fora da vida será coisa que tenha nexo?" (p.171)
"O dinheiro é uma coisa nojenta. Um sujeito decente não se escravisa a ele." (p.178)
"Continuou a andar, olhando com esquisito prazer para as pessoas que passavam. Todas elas deviam ter os seus dramas, os seus problemas morais e materiais, as suas pequenas e grandes alegrias. Eram seres humanos. Viviam!
"A vida começa todos os dias". Essa frase lhe visitou a mente durante todo o trajeto do consultório a casa." (p.179)
"Lembrou-se duma frase de Olívia: "A bondade não é uma virtude passiva". Como era fácil ser mau e como era ainda mil vezes mais fácil ser indiferente! A roda da vida girava e no fim de tudo estava a morte, o silêncio, o aniquilamento." (p.196)
"Só a vida ensina a viver, Genoca. É preciso a gente ver primeiro tudo que a vida tem de mau e de sórdidopara depois podermos descobrir o que ela tem de belo e de bom, de profundamente bom." (p.236)
"Aquele fim de inverno foi particularmente escuro para Eugênio. A morte de Dora lhe abrira as velhas feridas, que recomeçaram a sangrar. Já não o atormentava mais a sensação de culpa, a lembrança de que um gesto seu poderia ter evitado o desastre. O que ele sentia com dolorosa agudeza era a inutilidade de todos os gestos. Ninguém podia com o destino - sua mãe era quem tinha razão. A vida rolava a revelia de nossos desejos e os homens eram por ela arrastados inapelavelmente." (p.250-251)
"Anamaria veio correndo ao encontro do pai. Eugênio tomou-a nos braços e apertou-a contra o peito. A menina segurou-lhe o rosto com ambas as mãos.
- Papai, eu quero dormir no teu quarto, já estou mocinha.
- No meu quarto? - amirou-se Eugênio. - Mas tu vais deixar dona Frida sozinha, minha filha?
- A madrinha dorme com o padrinho.
Os Falk desataram a rir.
- Então tu queres mesmo dormir no quarto do pai?
Anamaria encolheu os ombros, enrugou o nariz e entortou a cabeça numa espantada interrogação.
- Pois eu não sou tua filha?
E, como acontecia sempre que não tinha argumentos, Eugêni deu-lhe um sonoro beijo de capitulação.
Naquela noitea cama de Anamaria foi posta ao lado da do pai. Às sete horas Eugênio teve de se deitar ao lado da filha a fim de que ela lhe segurasse a orelha.
Olhando para a filha ali a seu lado, Eugênio lembrava-se das palavras de Olívia: É como se agora te fosse dado modelar, com o barro de que foste feito, um novo Eugênio. E pensar que vais continuar nela." (p.251-252)
" - Que é a vida doutor? A vida... a vida... o senhor sabe... Não vale a pena viver... Eu às vezes penso: Ora, a gente nasce, vive sofrendo, mas por quê? Ninguém é sincero, os homens são egoístas. As mulheres também. A gente às vezes se apaixona, se faz de bobo, e por quem, doutor? Por umas dessas diabas pintadas e falsas que amanhã a terra como as carnes e elas ficam esqueleto, como qualquer cozinheira. O senhor decerto leu aquele versinho dos dois esqueletos, o do nobre e o do pobre, conversando debaixo da terra. O pobre se ergueu e perguntou pro nobre: Onde estão os teus avós nessa ossada branca? O outro não sabia. Todos na morte somos iguais. Mas o que é a morte? A morte, doutor, pode ser um sono sem sonhos. Ou, então a vida é o sonho da morte..." (p.257)
"Felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente. São estes intervalos entre um trabalho cansativo e outro trabalho cansativo, estes momentos em que a gente pode conversar com um amigo, brincar com os filhos, ler um bom livro... O erro é pensar que o conforto permanente, o bem-estar que nunca acaba e o gozo de todas as horas são a verdadeira felicidade. Como agora eu vejo claro! É preciso o contraste..." (p.259)
"E, de mãos dadas, pai e filha saíram para o sol." (p.273)

(VERISSIMO, Erico. Olhai os lírios do Campo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005)
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