sábado, 11 de outubro de 2008

Acontecimentos de sala de aula


Kandisnki


Estava eu em uma quinta série, crianças com média de idade de 11-12 anos. Estudamos no terceiro bimenstre os elementos da música onde ouvíamos músicas a fim de diferenciar os sons e instrumentos musicais melódicos e harmônicos. Os conceitos que as crianças deveriam aprender eram Melodia e Harmonia. No texto teórico de harmonia coloquei que a Harmonia sempre foi ligado aos conceitos de proporção e beleza (estética) e que na música se tratava de combinações de notas musicais soando juntas, trazendo essa noção de proporção e beleza entre os sons (abstração). Ao final do bimestre, nas aulas pós avaliações e constatação de que os conceitos haviam sido apreendidos pelas crianças, propus uma atividade interdisciplinar com as artes plásticas. Após uma breve explicação oral sobre a trajetória das artes visuais desde o figurativo, fotografia, cinema e abstração chegando na arte conceitual, propus que fosse feito desenhos que servissem de embelezamento estético aos cadernos de música. De uma abstração qualquer, feita a lápis grafite, criado pelas crianças, elas deveriam colorir, de forma pessoal, buscando preencher os espaços da folha, harmonizando as cores da forma que mais lhes agradassem.
Esta atividade funcionou muito bem, as crianças se dedicaram bastante a isto, demostrando apreço aos trabalhos finalizados. Percebi o quanto é difícil trabalhar com as artes visuais pois no momento de criação, no fazer artístico, as crianças cantam, falam, conversam entre si, alguns se movimentam o tempo todo para olhar os outros trabalhos ou pedir material emprestado. É uma movimentação intensa devido a fluição de idéias. Aparentemente a sala de aula se encontra em um tumulto total, mas existe uma ordem criativa que não pode ser bloqueada. Embora o ruído proporcionado por esta movimentação as vezes me encomodasse, fiz de tudo para manter as criações e não bloquear as idéias, apenas estimulando os que apresentam maiores dificuldades de concentração.

Mas o fato marcante foi uma pergunta realizada por uma menina, enquanto coloria sua arte, muito concentrada e repleta de seriedade:

- Ô Sêo! A zebrinha é branca e preta ou preta e branca?

Pensei um pouco sobre a pergunta e percebi que esta diferença fazia todo o sentido no trabalho dela já que começar pintando a zebrinha por preto ou branco, poderia afetar a proporcionalidade a a harmonia das cores. Eu, sem saber a resposta exata, respondi que dependeria do ângulo que ela estivesse olhando a zebrinha... e devolvi o pensamento perguntando a ela se a vaquinha era branca e preta ou era preta e branca?

Ela, categoricamente respondeu que era branca e preta. hehehehe
Esses acontecimentos que valem a pena para um arte educador romantico como eu! Quanto mais tempo vivo na escola, mais me decepciono com os adultos e me alegro em conviver com as crianças!
(Trilha sonora para o texto: Of Montreal - Faberge Falls for Shuggie)

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