Compondo a autoria: reflexões sobre o processo de "redizer" ou enunciação da morte do autor
por Éverton de Almeida
O autor... quem é esse? Tentando compor um texto que seja a minha forma própria de redizer o já dito, leio e releio para escrever aquilo que os Autores me disseram através de seus textos, e que, muito provavelmente, outros escritos já tentaram assim fazer. “O sujeito nunca fala palavras que já não foram ditas, embora, muitas vezes, não tenha consciência disso” (CAVALHEIRO, 2008, p. 71). Me enquadraria, nesse caso, no primeiro tipo de autor que Schopenhauer (2012, p.57) apresenta em ‘A arte de Escrever’: escrevendo das reminiscências, daquilo que li, a partir da memória do que li.
Tipificando três formas de autor, Schopenhauer (2012) enquadra um segundo tipo de autor, onde estão os que pensam enquanto escrevem. Estes dois tipos são, segundo ele, os mais numerosos. Os raros, são os de terceiro tipo, aqueles que escrevem por que pensaram. O pensamento antecedeu o processo de escrita destes autores, e são eles os que perpetuam-se na imortalidade. Ainda, dentre estes raros, são mais raros ainda os originais, aqueles que pensam seriamente em suas próprias questões, e não a partir de livros ou sobre o que os outros disseram. “Apenas aqueles que, ao escrever, tiram a matéria de suas cabeças são dignos de serem lidos.” (SCHOPENHAUER, 2012, p.58)
Paul Gauguin (2012, p.9), célebre pintor, conhecido por seu envolvimento com Van Gogh, em seu único livro, o romance anacrônico intitulado Antes & Depois, provoca o leitor com sua frase inicial, onde afirma que o livro que temos em mãos não é um livro, pois, “um livro, mesmo um mau livro, é um assunto sério”. Que a obra, se produz “na carne viva”, perguntando: “A realidade não é suficiente para que nos abstenhamos de escrevê-la”? Exemplifica-se, com esta apresentação do livro de Gauguin, típica da crítica literária, o que Barthes (2012, p.61) apresenta como a exaltação do autor: “O livro e o autor colocam-se por si mesmos numa mesma linha, distribuída como um antese um depois: considera-se que o Autor nutre o livro, quer dizer que existe antes dele, pensa, sofre, vive por ele; está para sua obra na mesma relação de antecedência que um pai para um filho”.
Nesta discussão desenvolvida dentro de um processo reminiscente, onde encontro a minha autenticidade? Quando escrevo, procuro, organizo, componho com as inspirações motivadas pelas reflexões em cima das leituras, através da fruição do que encontro nas fontes, buscando redizer com alguma originalidade o que me foi dito. O autor, aqui, está morto e os autores que trago também – em sentido literal: Foucault, Barthes, Schopenhauer. Estes, trazem a morte como ponto de nodal da escrita, “o parentesco da escrita com a morte” (FOUCAULT, 2001, p.7), seja para adiá-la ou para perpetuar o herói; Schopenhauer (2012, p.66) dá pistas do que seria o instrumento que fere e faz sangrar a autenticidade do pensamento, que é o momento em que ele [o pensamento do autor] se confronta com a escrita, quando “faz fronteira com as palavras: ali se petrifica, e a partir de então está morto”. Cavalheiro, aponta: “Barthes também discorre acerca da dificuldade em se precisar de quem é a voz que escreve, uma vez que, em sua concepção, a escrita destrói toda a voz” (p.71) Da fonte trago a frase descrita acima: “a escritura é a destruição de toda voz. De toda origem” (BARTHES, 2012, p.57). A morte de quem escreve é iminente, é como um ato de des-existir, de deixar de ser, de desistir de ser o “esse” (da primeira pergunta deste texto) dentro do seu próprio texto, para deixar-se falar pela escrita: a “marca do escritor não é mais do que a singularidade de sua ausência; é preciso que ele faça o papel do morto no jogo da escrita” (FOUCAULT, 2001, p.7).
Então, quem emerge como protagonista? Com a web 2.0 e a ampliação da interação em rede, consolidado na primeira década do século XXI, conceitos como “comunidades de aprendizagens”, “wiki”, “recursos educacionais abertos”, ainda que mantenham o sentido de autoria – para manter um estatuto, de “que se trata de uma palavra que deve ser recebida de uma certa maneira e que deve, em uma dada cultura, receber um certo status” (FOUCAULT, 2001, p.13) – tendem a confirmar o que os autores aqui descritos apresentam: a morte do autor. O leitor passa a ser o protagonista.
... “o leitor é um homem sem história, sem biografia, sem psicologia; ele é apenas esse alguém que mantém reunidos em um mesmo campo todos os traços de que é constituído o escrito. Para devolver à escritura seu futuro, é preciso inverter o mito: o nascimento do leitor deve pagar-se com a morte do Autor”. (BARTHES, 2012, p.64)
Referências:
BARTHES, Roland. O Rumor da língua. São Paulo: Martins Fontes, 2012.
CAVALHEIRO, J. A concepção de autor em Bakhtin, Barthes e Foucault. In Signum: Estudos da Linguagem. N, 11/2, p67-81, dez 2008. Disponivel em http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/signum/article/view/3042
FOUCAULT, Michel. O que é um autor. In Ditos e Escritos: Estética – literatura e pintura, música e cinema (vol. III). Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001. p.264-298
GAUGUIN, Paul. Antes & Depois: ideias e memórias. Porto Alegre: L&PM, 2011
SCHOPENHAUER, Arthur. A arte de escrever. Porto Alegre: L&PM, 2012
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